Trabalho e InteligĂȘncia Artificial: o que o PL 2338/2023 propĂ”e para proteger os trabalhadores
- Natalia SĂŁo JoĂŁo
- 9 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O Projeto de Lei nÂș 2338, de 2023, representa a principal proposta brasileira para regulamentar o desenvolvimento e o uso da InteligĂȘncia Artificial. Embora trate de temas amplos, um de seus eixos mais relevantes Ă© a proteção ao trabalho e aos trabalhadores diante da automação crescente. O projeto parte do princĂpio da centralidade da pessoa humana e da necessidade de que a inovação tecnolĂłgica seja compatĂvel com direitos fundamentais, limites Ă©ticos e garantias sociais. Nesse contexto, inclui diretrizes que procuram evitar que sistemas de IA prejudiquem, fragilizem ou discriminem trabalhadores nas relaçÔes de trabalho.Â
Entre as diretrizes previstas, o projeto estabelece que o uso da IA deve ocorrer de maneira transparente, auditĂĄvel e explicĂĄvel. DecisĂ”es automatizadas que afetem emprego, avaliação de desempenho, promoçÔes ou desligamentos precisam contar com supervisĂŁo humana adequada. Essa exigĂȘncia busca impedir que algoritmos reproduzam vieses, erros ou prĂĄticas discriminatĂłrias, garantindo que o trabalhador possa questionar, compreender e contestar decisĂ”es que impactem diretamente sua vida profissional. A proteção ao trabalho Ă© mencionada expressamente como fundamento regulatĂłrio, reforçando que a adoção de IA deve respeitar a legislação trabalhista e preservar direitos jĂĄ assegurados em lei.Â
O texto tambĂ©m prevĂȘ que as autoridades reguladoras, especialmente o Sistema Nacional de Regulação e Governança de InteligĂȘncia Artificial, coordenado pela ANPD, devem atuar em cooperação com o MinistĂ©rio do Trabalho para estabelecer normas que considerem os riscos da automação sobre emprego, condiçÔes de trabalho e remuneração. Essa cooperação inclui a elaboração de regras para proteger trabalhadores envolvidos em todas as etapas do ciclo de vida da IA, desde atividades de coleta de dados atĂ© rotinas de anotação, rotulagem e validação. AlĂ©m disso, o projeto aponta que a coleta de dados dos trabalhadores deve respeitar limites estritos, evitando uso abusivo de informaçÔes sensĂveis, comportamentais ou emocionais.Â
Outro ponto relevante Ă© a preocupação com a substituição acelerada da força de trabalho. Algumas versĂ”es do texto contemplavam restriçÔes a demissĂ”es em massa motivadas unicamente pela adoção de IA, bem como exigĂȘncias de anĂĄlise prĂ©via de impacto sobre emprego. Embora parte dessas proteçÔes tenha sido suavizada durante a tramitação, a diretriz geral permanece: o uso de IA nĂŁo deve resultar em precarização laboral ou eliminação indiscriminada de postos de trabalho. O projeto tambĂ©m indica a necessidade de capacitação e atualização profissional, como forma de permitir que trabalhadores se adaptem Ă nova realidade tecnolĂłgica, prevenindo desigualdades estruturais associadas Ă exclusĂŁo digital.Â
Apesar dessas intençÔes, o texto tem sido alvo de crĂticas. OrganizaçÔes da sociedade civil, especialistas e entidades sindicais apontam que a versĂŁo atual apresenta termos vagos e pouco definidos, como âtrabalhadoresâ e âcondiçÔes de trabalhoâ, sem deixar claro quais vĂnculos, categorias ou setores sĂŁo abrangidos. A ausĂȘncia de salvaguardas mais explĂcitas sobre proteção trabalhista, negociação coletiva e limites Ă automação em larga escala tambĂ©m preocupa. Outro ponto sensĂvel Ă© que a governança prevista no projeto nĂŁo garante participação social ampla no processo regulatĂłrio, privilegiando ĂłrgĂŁos estatais e mecanismos de autorregulação que podem nĂŁo refletir os interesses dos trabalhadores mais vulnerĂĄveis.Â
Mesmo com essas insuficiĂȘncias, o PL 2338/2023 inaugura um marco regulatĂłrio importante para o paĂs: reconhece que a IA impacta profundamente o mundo do trabalho e que a proteção de quem trabalha deve fazer parte do centro do debate tecnolĂłgico. A efetividade dessas diretrizes dependerĂĄ da redação final aprovada na CĂąmara, da regulamentação posterior e, sobretudo, da capacidade de fiscalização e de participação social. O desafio Ă© equilibrar inovação, competitividade e eficiĂȘncia sem abrir mĂŁo da dignidade do trabalho humano. Em um cenĂĄrio em que a automação avança rapidamente, a clareza das regras e a proteção concreta dos trabalhadores serĂŁo fatores decisivos para determinar se a IA serĂĄ instrumento de desenvolvimento ou de aprofundamento das desigualdades.Â
| NatĂĄlia SĂŁo JoĂŁo

